O mercado brasileiro de automação

O mercado brasileiro de automação

Durante muito tempo, o mercado brasileiro de automação se permitiu vender espetáculo. Apps, cenas, comando de voz, integração pontual e efeito uau ocuparam o centro da conversa. Mas o setor amadureceu. Hoje, a pergunta decisiva já não é o que a tecnologia faz em demonstração; é o valor que ela entrega na vida real.

Números que ajudam a ler o momento

Dado-chave Leitura estratégica
74,9 milhões de domicílios usavam internet em 2024, o equivalente a 93,6% do total. [IBGE, 2025]
13,5 milhões de domicílios conectados já possuíam algum dispositivo inteligente em 2024, ou 18,1% dos conectados. [IBGE, 2025]
2.019 municípios e 64,94% da população brasileira já contavam com cobertura 5G em dezembro de 2025. [MCom, 2025]
28,3 milhões de estações M2M estavam licenciadas ao final de 2025, alta superior a 258% sobre 2021; os incentivos tributários foram prorrogados até 2030. [Anatel, 2025]

 

Síntese: a infraestrutura macro já não é mais desculpa para subestimar o setor. O desafio central passou a ser traduzir conectividade em proposta de valor, método de implantação e escala sustentável.

  1. O mercado entrou em uma nova fase

O mercado brasileiro de automação entrou em uma nova fase porque o discurso do encantamento já não sustenta sozinho a decisão de compra, a especificação técnica nem o posicionamento das empresas. Durante anos, bastava demonstrar que uma lâmpada podia ser acionada pelo celular ou que uma cena podia ser disparada por voz para que a automação parecesse inovadora. Essa fase foi importante, porque ajudou a popularizar o imaginário da casa conectada. Mas ela se tornou insuficiente.

O cliente de hoje – seja morador, arquiteto, integrador, parceiro comercial ou investidor – quer outra conversa. Ele quer entender o que a automação resolve. Quer saber se ela reduz atrito, melhora segurança, organiza o uso da energia, simplifica a rotina, valoriza o imóvel e evita retrabalho. Em outras palavras: a automação deixou de ser apenas linguagem de tecnologia e passou a ser linguagem de resultado.

Essa mudança não elimina o fascínio da inovação. Ela apenas o recoloca em seu devido lugar. O setor não perde força quando para de vender gadget; ao contrário, ele ganha maturidade quando passa a vender valor. O próximo ciclo não será liderado por quem conectar mais objetos. Será liderado por quem transformar conectividade em experiência consistente, operação simples e benefício percebido.

  1. A base digital finalmente sustenta a escala

Há alguns anos, parte do setor ainda podia alegar que a base brasileira de conectividade era limitada demais para sustentar uma expansão mais robusta da automação. Essa desculpa ficou para trás. Em 2024, a internet estava presente em 74,9 milhões de domicílios brasileiros, o equivalente a 93,6% do total. Entre os lares conectados, 13,5 milhões já possuíam algum dispositivo inteligente acessado pela internet, o que representa 18,1% dos domicílios com internet. Em 2023, esse percentual era de 16,0%; em 2022, 14,3%. A curva ainda está longe de saturação, mas mostra avanço concreto. [IBGE, 2025]

O dado mais relevante, porém, não é apenas a existência de internet no domicílio. É a qualidade crescente da base de acesso. Entre 2016 e 2024, a proporção de domicílios com conexão por banda larga fixa e móvel passou de 48,8% para 73,3%. Isso significa que a conectividade residencial no país se tornou mais híbrida, mais redundante e mais adequada a usos intensivos, exatamente o tipo de base que favorece soluções conectadas mais estáveis. [IBGE, 2025]

No fim de 2025, dados do Ministério das Comunicações indicavam cobertura 5G em 2.019 municípios, alcançando 64,94% da população brasileira. Em março de 2026, o próprio Ministério projetou que o país poderá chegar a 80% da população coberta até o fim de 2026. Em paralelo, a Anatel informou que o número de estações M2M licenciadas saltou de 10,9 milhões, em 2021, para 28,3 milhões, ao fim de 2025, crescimento superior a 258%, com desoneração prorrogada até 2030. [MCom, 2025; MCom, 2026; Anatel, 2025]

Esses números não significam que toda casa brasileira esteja pronta para uma automação madura. Significam algo mais importante: a infraestrutura macro que sustenta a expansão do setor está muito mais robusta. O desafio agora deixa de ser provar que o mercado existe. Passa a ser capturar valor com inteligência, método e posicionamento.

  1. Adoção ainda concentrada: oportunidade e desafio ao mesmo tempo

Os dados mais recentes do IBGE também revelam um ponto estratégico importante: a automação ainda está concentrada nas faixas de renda mais altas. Em 2024, o rendimento médio mensal real per capita dos domicílios com dispositivo inteligente era de R$ 3.564, ante R$ 1.777 nos domicílios sem esse tipo de equipamento. Isso não autoriza concluir que renda seja o único motor da adoção, mas indica com clareza que a casa conectada no Brasil ainda carrega uma marca de assimetria econômica. [IBGE, 2025]

Essa leitura é decisiva para o mercado. De um lado, confirma que o segmento ainda tem forte aderência em projetos premium e de médio-alto padrão, onde conforto, segurança, eficiência e integração já são atributos valorizados. De outro, revela o tamanho da oportunidade para produtos, serviços e modelos de implantação que consigam reduzir fricção, simplificar a decisão de compra e ampliar a capilaridade do setor.

A massificação da automação no Brasil não virá apenas da queda de preço dos dispositivos. Ela virá da combinação entre produtos mais simples de especificar, projetos mais inteligentes de instalar, retrofit mais limpo, suporte mais confiável e narrativas comerciais menos centradas no brilho da tecnologia e mais centradas na utilidade da solução.

  1. O cliente não compra tecnologia; compra fricção baixa

É comum o setor cair na armadilha de apresentar a automação a partir do recurso técnico. Mas o morador, o comprador do imóvel, o arquiteto e até o parceiro comercial não pensam primeiro em protocolo, topologia ou hub. Eles pensam em fricção. Pensam no que interrompe a rotina, no que gera insegurança, no que desperdiça energia, no que complica o uso e no que reduz a percepção de qualidade do espaço.

Por isso, a automação ganha força quando muda de linguagem. Em vez de vender dispositivo, ela passa a vender conforto sem esforço. Deixa de vender aplicativo e passa a vender operação intuitiva. Em vez de vender promessa de futuro, ela passa a vender previsibilidade no presente. Quando isso acontece, o setor deixa de depender de encantamento e começa a trabalhar com valor percebido.

Essa virada é especialmente importante em um país como o Brasil, onde a experiência cotidiana do morar passa por fatores muito concretos: segurança, controle de acesso, iluminação funcional, climatização eficiente, conectividade confiável, integração com energia e adaptação da casa ao uso híbrido entre vida pessoal e trabalho. A tecnologia que não conversa com essas dores reais pode até impressionar em feira, mas não cria mercado duradouro.

  1. Retrofit: a fronteira de escala do setor

Uma das maiores distorções da leitura tradicional do setor é imaginar que a automação depende principalmente de obra nova. Não depende. O Brasil é, antes de tudo, um país de estoque construído. A maior parte do metro quadrado que interessa ao mercado já existe, já está habitada, já tem infraestrutura instalada e já apresenta sinais de obsolescência funcional. É nesse ponto que o retrofit deixa de ser um nicho técnico e passa a ser uma tese de crescimento.

Retrofit, aqui, não deve ser entendido como improviso tecnológico nem como adaptação de segunda linha. Quando bem concebido, ele é a estratégia de atualizar o imóvel para o presente sem refazer o edifício inteiro. É a passagem do imóvel analógico para o imóvel atual. É a diferença entre um espaço que apenas existe e um espaço que responde bem às exigências do morar contemporâneo.

O valor dessa tese é enorme porque o retrofit ataca exatamente a zona em que o mercado brasileiro mais sente atrito: elétrica envelhecida, conectividade mal distribuída, infraestrutura insuficiente para novos usos, sistemas isolados, segurança pouco integrada e baixa inteligência operacional. Resolver isso com método, sem trauma de obra desnecessária, é uma das maiores frentes de geração de valor do setor.

Sob a ótica comercial, o retrofit também muda a escala da automação. Ele tira o setor da dependência de lançamentos de alto padrão e o insere em uma conversa muito mais ampla: valorização do imóvel usado, modernização de apartamentos, atualização de condomínios, melhoria incremental de casas existentes e criação de produtos de automação pensados para o parque construído real do país.

  1. IA: quando a automação deixa de obedecer e começa a compreender contexto

Inteligência artificial virou a palavra obrigatória do momento. Justamente por isso, tornou-se também um risco retórico. No mercado de automação, há uma diferença decisiva entre usar IA como adereço de marketing e usá-la como camada real de valor. A IA só interessa ao setor quando transforma a casa de um ambiente reativo em um ambiente contextual.

Na prática, isso significa sair de sistemas que apenas executam comandos para sistemas capazes de interpretar presença, padrões de uso, preferências, horários, consumo, clima, segurança e manutenção. A automação ganha outra densidade quando deixa de depender exclusivamente de ordens explícitas e passa a antecipar necessidades de forma discreta, ética e útil.

Mas essa transição não acontecerá por mágica. IA sem base de infraestrutura é só apresentação bonita. Para que ela gere valor real, é preciso dados minimamente organizados, conectividade confiável, camadas de interoperabilidade, regras claras de governança, atenção à privacidade e critérios de cibersegurança. Do contrário, a promessa de inteligência apenas acrescenta complexidade.

O ponto central é este: a IA será relevante na automação não quando aparecer mais, mas quando desaparecer melhor. Quanto menos o usuário precisar pensar na tecnologia, melhor ela estará funcionando. A casa do futuro não será a casa que exige mais atenção. Será a casa que devolve atenção.

  1. Profissionalização: o verdadeiro divisor de águas

Nenhum mercado amadurece sustentavelmente com base em improviso. A automação brasileira ainda perde muito valor quando trata projeto, rede, elétrica, compatibilidade, comissionamento, documentação, treinamento e suporte como temas secundários. Essa lógica funciona enquanto o setor vive de deslumbramento. Deixa de funcionar quando o cliente passa a cobrar continuidade, estabilidade e responsabilidade.

A profissionalização é o momento em que o setor entende que instalar não é o mesmo que entregar. Instalar é ligar. Entregar é comissionar, documentar, treinar, registrar, deixar manutenível e preparar o sistema para evoluir sem trauma. É nesse ponto que a automação deixa de ser bricolagem digital e passa a ser infraestrutura confiável.

Isso vale para todos os elos da cadeia. Vale para o fabricante que precisa simplificar suporte, padronizar integração e reduzir dependência de exceções. Também vale para o integrador que deve diagnosticar antes de prometer. Vale para o técnico que precisa dominar procedimento, rede, energia e pós-venda. Vale para o arquiteto que precisa inserir a automação cedo no raciocínio do projeto. E vale para o cliente, que precisa receber um sistema compreensível, usável e sustentável ao longo do tempo.

Mercado maduro não é aquele que tem mais marcas. É aquele que reduz variabilidade desnecessária e aumenta previsibilidade. É isso que profissionalização significa.

  1. Onde estão as oportunidades reais do ecossistema

Quando o mercado entra nessa nova fase, as oportunidades deixam de estar concentradas em um único tipo de produto ou de cliente. Elas se espalham por vários elos, cada um com uma agenda própria.

Para fabricantes e distribuidores, a maior oportunidade está em ecossistemas menos fragmentados: linhas com melhor interoperabilidade, suporte técnico mais inteligente, kits mais coerentes para retrofit e discurso comercial mais orientado a aplicação do que a especificação isolada.

Para integradores, instaladores e empresas de projeto, a oportunidade cresce onde há diagnóstico, retrofit, comissionamento, manutenção e recorrência de serviço. Quem continuar vendendo apenas instalação pontual vai disputar margem. Quem vender confiabilidade e continuidade vai construir valor.

Para arquitetos e designers, a oportunidade está em trazer a automação para o briefing, para o memorial, para a compatibilização e para a narrativa de valor do projeto. O profissional que souber traduzir tecnologia em experiência espacial deixa de ser apenas especificador e passa a ser articulador de um novo padrão de habitar.

Para o mercado imobiliário e para quem trabalha com imóvel usado, a oportunidade está em transformar automação em argumento real de atualização, liquidez e percepção de cuidado. O imóvel pronto para conectar tende a competir melhor do que o imóvel apenas maquiado.

Para instituições de formação e entidades setoriais, a oportunidade está em acelerar a curva de maturidade do mercado: menos tutorial de aplicativo, mais método de campo; menos glamour superficial, mais repertório técnico, comercial e operacional.

Artigo de Cláudio Schüller
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