O boom de data centers e IA pressiona e redesenha a conectividade óptica no Brasil

O boom de data centers e IA pressiona e redesenha a conectividade óptica no Brasil

O Brasil vive um momento decisivo na construção de sua infraestrutura digital. A expansão acelerada dos data centers, impulsionada pela adoção massiva de inteligência artificial, redesenha prioridades tecnológicas e cria um cenário de oportunidades, mas também de desafios, onde a conectividade óptica passa a ser peça central para o funcionamento da nova economia de dados.

Os números do mercado confirmam a força dessa transformação. A capacidade de carga de TI dos data centers brasileiros deve crescer, de menos de 1 GW em 2025, para cerca de 1,5 GW até 2030, segundo estimativas internacionais da Mordor Intelligence.

Testemunhamos como a inteligência artificial, especialmente modelos generativos e aplicações em tempo real, torna-se um dos principais vetores desse movimento. A IA exige poder computacional muito acima dos padrões tradicionais, o que acelera a criação de data centers mais densos, complexos e interconectados. Esses ambientes passam a depender de redes ópticas de altíssima capacidade para suportar volumes massivos de tráfego, baixa latência e operação contínua. Afinal, sem uma base sólida de conectividade, o potencial da inteligência artificial e do processamento em larga escala fica limitado.

A IA, ao contrário de outras ondas tecnológicas, impõe uma demanda inédita por desempenho e escalabilidade nunca previstos globalmente. Modelos generativos, sistemas de análise preditiva e aplicações em tempo real aumentam exponencialmente o tráfego de dados entre servidores, usuários e nuvens distribuídas. Essa nova dinâmica pressiona os provedores de conectividade a expandirem suas redes ópticas, a adotarem arquiteturas mais inteligentes e a investirem em novas tecnologias. Teoricamente, é necessária uma elevação em quase 10 vezes na conectividade, energia e até soluções de resfriamento para atender a essas novas demandas.

Essa pressão tecnológica se reflete diretamente no mercado de conectividade óptica. A demanda por transceptores ópticos de alta velocidade, por exemplo, deve mais que dobrar no Brasil até 2030. Ao mesmo tempo, o mercado de interconexão entre data centers cresce acima de 12% ao ano, impulsionado pela necessidade de conectar nuvens, edge locations e provedores de serviços em arquiteturas híbridas. O próprio Plano Nacional de Infraestrutura Digital prevê que até 2030 todos os municípios brasileiros estejam conectados a backhaul de fibra óptica, ampliando a capilaridade e criando condições para uma expansão mais distribuída da infraestrutura digital.

Apesar das oportunidades, o setor enfrenta desafios significativos. A infraestrutura óptica brasileira ainda apresenta desigualdades regionais com a falta de infraestrutura óptica robusta fora do eixo Sul-Sudeste que limita a adoção de DCs em regiões como Norte/Nordeste, criando um efeito de gargalo, assim como a capilaridade da rede limita a descentralização de data centers e a adoção plena de edge computing. Além disso, o crescimento do consumo energético exige soluções que conciliem performance e sustentabilidade, seja por meio de arquiteturas de rede inteligentes, equipamentos mais eficientes ou da integração com sistemas de reaproveitamento energético.

Além desses pontos, o setor enfrenta obstáculos que vão desde barreiras regulatórias e altos custos de implantação especialmente em áreas urbanas densas e regiões remotas até a carência de profissionais qualificados em redes ópticas, automação e segurança, o que demanda investimentos contínuos em formação técnica. Soma-se a isso a necessidade de fortalecer a segurança cibernética e a resiliência das redes, já que o aumento da interconexão e do tráfego de dados exige infraestruturas preparadas para eventos climáticos extremos e ataques cibernéticos. Por fim, a busca por eficiência energética e pela redução do impacto ambiental torna-se cada vez mais central, destacando o papel da matriz energética limpa do Brasil e a importância de integrar soluções de reaproveitamento de energia ao desenvolvimento do setor.

Nesse contexto, a conectividade óptica deixa de ser um componente técnico e passa a ocupar uma posição estratégica. Operadoras, integradoras e provedores de tecnologia precisarão atuar de forma coordenada para atender a requisitos de escalabilidade, automação e resiliência cada vez mais rigorosos.

Acredito que o Brasil tem potencial real para se consolidar como o principal polo de data centers da América Latina e se destaca principalmente por conta de sua matriz energética limpa e do alinhamento com as principais práticas de sustentabilidade. Mas, ainda assim, será necessário que a evolução da infraestrutura física caminhe em paralelo com o avanço das tecnologias digitais. O aumento no consumo de energia e na dissipação de calor exige soluções que aliem performance e responsabilidade ambiental, um equilíbrio que passa, novamente, pela engenharia óptica.

À medida que a IA redefine o que significa ser “future-ready”, o setor óptico brasileiro terá papel decisivo na construção do backbone digital que sustentará inovação, competitividade e desenvolvimento econômico nos próximos anos. Nesse contexto, a conectividade óptica não é apenas um meio, mas o pilar central dessa jornada que sustentará o futuro digital do país.

Artigo de Rodrigo Coutinho, gerente de Elétrica na Deerns Brasil

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