O edifício que cuida por que clínicas e hospitais sem automação já nascem obsoletos

O edifício que cuida: por que clínicas e hospitais sem automação já nascem obsoletos

Existe um tipo de cansaço que não aparece em nenhum exame. Ele mora no ambiente. Você percebe quando a recepção vira termômetro do edifício e, sem ninguém combinar, alguém comenta “hoje está impossível aqui dentro”. Nota quando o médico fecha a porta e faz aquela pequena pausa antes de começar, como se o consultório precisasse pedir desculpas pela luz que ofusca ou pelo ar que oscila. Você percebe quando a equipe aprende a contornar o espaço e passa a chamar isso de rotina, como se improviso fosse competência.

Eu não falo de automação como quem vende tecnologia. Falo como arquiteta que já viu operação real. Eu não projeto para foto, eu projeto para o dia útil, para a agenda cheia, para o final da tarde, para quando ninguém tem tempo de negociar com o prédio. E é por isso que afirmo, sem dramatização: clínica e hospital sem automação já nascem obsoletos, não porque faltam telas, mas porque falta previsibilidade.

A OMS, ao discutir saúde digital, insiste num ponto que muita gente tenta transformar em slogan, mas que é estrutura dura: iniciativa de tecnologia em saúde precisa de estratégia robusta e integração de recursos humanos, organizacionais e tecnológicos. Isso não é conversa de software. É conversa de sistema. E o edifício é parte do sistema. Ele é a plataforma física onde cuidado, fluxo e decisão precisam acontecer com estabilidade.

Antes de qualquer inteligência, vem o básico que ninguém deveria negociar: energia confiável. Sem eletricidade estável não existe iluminação adequada, comunicação, conservação segura, nem continuidade de procedimentos. A OMS é direta ao lembrar que eletricidade alimenta os serviços mais essenciais e viabiliza a própria assistência. A contradição é evidente: compra-se equipamento sofisticado e aceita-se um prédio que exige atenção manual o tempo todo, como se fosse normal que uma operação de saúde dependa de sorte.

Automação, quando é boa, é discreta. Ela não transforma o edifício num parque temático. Transforma o edifício num aliado. Ela conecta sistemas que normalmente vivem isolados e cria memória. Monitoramento, alarmes, registro e lógica de funcionamento. Em saúde, isso não é conforto apenas. Isso é proteção contra a cultura do “depois a gente vê”.

A seriedade do tema aparece com clareza quando falamos de qualidade ambiental. Ventilação em estabelecimentos de saúde não é assunto de preferência, é assunto de risco, de assepsia, de conforto térmico, de odor, de segurança de pacientes e trabalhadores. É por isso que existem padrões específicos como o ANSI ASHRAE ASHE 170 para requisitos mínimos de ventilação em instalações de saúde e suas atualizações recorrentes. Quando não há controle consistente, o ambiente vira personagem imprevisível. E o imprevisível, em hospital, nunca é elegante. Ele só é caro.

Agora vem o ponto que eu considero o mais subestimado e, ao mesmo tempo, o mais determinante: iluminação. Eu não estou falando de “luz bonita”. Estou falando de luz como instrumento clínico. Luz interfere na precisão visual, na leitura de contraste, na percepção de detalhes e na fidelidade de cor. Por isso há práticas recomendadas específicas para iluminação em hospitais e ambientes assistenciais, reconhecendo que não existe um único “modo de luz” que sirva para tudo. E por isso guias como o LG02 do CIBSE tratam a iluminação em saúde como um sistema que precisa acompanhar o funcionamento real do hospital contemporâneo, não como um item de acabamento.

A pergunta que eu gosto de fazer é simples e desconfortável. Se ninguém aceitaria um instrumento improvisado para um procedimento, por que aceitamos iluminação improvisada para o trabalho clínico diário? Por que normalizamos consultórios que dão sonolência, salas que ofuscam, circulações que parecem sempre um pouco erradas, quartos que nunca ficam realmente noturnos?

Existe ainda uma camada mais profunda, e aqui a arquitetura encosta na biologia. Luz não conversa só com o olho. Ela conversa com o corpo. A CIE vem consolidando a lógica de integrativelighting, a ideia de luz adequada no momento adequado, considerando efeitos fisiológicos e comportamentais da exposição luminosa ao longo do dia e da noite. Isso tem consequências reais em ambiente hospitalar. Em 2025, um estudo em unidade hospitalar associou iluminação dinâmica, programada para apoiar ritmo circadiano, a aumento da duração do sono noturno e melhora percebida de alerta. No mesmo ano, pesquisa em UTI pediátrica investigou iluminação dinâmica e efeitos em conforto visual e biomarcadores circadianos de profissionais, trazendo um recado importante: a prática cotidiana muitas vezes fica aquém do que seria desejável para quem trabalha sob pressão e precisa enxergar bem.)

Não é modismo. É coerência operacional e respeito humano. Um paciente que dorme pior tende a sofrer mais. Uma equipe que trabalha com desconforto visual acumula fadiga. E fadiga, em saúde, não é só sensação. Ela vira erro, irritação, queda de rendimento, decisões mais lentas. É o tipo de custo que não aparece numa planilha com a dignidade que merece.

Automação bem aplicada transforma a iluminação em cenas claras, úteis e consistentes com o uso e com o tempo. Atendimento, exame, procedimento, limpeza, acolhimento, repouso, noite. O edifício deixa de exigir micro decisões repetidas e passa a entregar um ambiente que simplesmente funciona. Isso libera a energia mental de quem está ali para o que interessa. Cuidar de pessoas.

No fim, obsolescência em saúde não começa quando o equipamento envelhece. Começa quando o edifício não sustenta o trabalho com constância. Quando a manutenção é reativa. Quando a equipe precisa cuidar do prédio para conseguir cuidar do paciente. A provocação final, então, é inevitável. O seu edifício trabalha a favor do seu time, ou ele é mais um paciente na fila?

Artigo de Adriana Pestana, arquiteta e mestre em Automação na Arquitetura (UPM)

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