Durante muitos anos, a automação doméstica esteve fundamentada em um modelo relativamente simples: sensores detectam eventos e acionam respostas pré-programadas. Embora esse paradigma tenha trazido ganhos importantes em conforto e eficiência energética, ele começa a se mostrar limitado diante das expectativas atuais de usuários, integradores e gestores imobiliários.
Os lançamentos e conceitos apresentados na CES 2026 deixam claro que o setor está entrando em uma nova fase, marcada por automação contextual baseada em presença inteligente e pela ascensão da robótica doméstica com inteligência artificial avançada, indo muito além de dispositivos isolados.
Automação contextual e presença inteligente: além do “se tem movimento, acende a luz”
Limitações do modelo baseado apenas em sensores
- Sensores de presença, abertura e movimento continuam sendo elementos essenciais, mas isoladamente apresentam limitações conhecidas:
- Falsos positivos (animais, variações térmicas, movimentos pontuais)
- Falta de entendimento sobre quem está presente
- Incapacidade de diferenciar contexto (entrada rápida, permanência, atividade em curso)
Esse modelo gera automações reativas, e não inteligentes.
O conceito de automação contextual
A automação contextual surge quando o sistema passa a interpretar múltiplas variáveis simultaneamente, como:
- Presença confirmada por múltiplas fontes (UWB, Bluetooth, Wi-Fi, visão computacional)
- Histórico de comportamento do usuário
- Horário, luminosidade natural e condições climáticas
- Atividade presumida (chegada, descanso, trabalho, lazer)
Nesse cenário, a automação deixa de responder apenas a um evento e passa a antecipar necessidades.
Presença inteligente: saber que alguém está ali não é suficiente
A presença inteligente representa um salto qualitativo ao responder perguntas mais complexas:
- Quem está presente?
- Onde exatamente está essa pessoa?
- Por quanto tempo?
- Qual é o padrão de comportamento esperado nesse contexto?
Tecnologias como Ultra-Wideband (UWB), câmeras com processamento local por IA, sensores de ocupação multizona e dados de dispositivos pessoais permitem esse nível de precisão. O resultado são automações mais naturais, quase invisíveis ao usuário.
Exemplo prático:
A casa não “liga a iluminação” porque houve movimento, mas porque reconheceu a chegada do morador principal, no início da noite, após um dia de trabalho, acionando iluminação cênica, climatização e áudio ambiente de forma integrada.
- Menos cenas manuais
- Menor dependência de comandos por voz ou aplicativos
- Maior percepção de valor por parte do usuário final
- Redução de erros operacionais e intervenções técnicas
Robótica doméstica com IA avançada: da função única ao agente doméstico
A era dos robôs “isolados”
Até recentemente, a robótica residencial estava restrita a funções específicas:
- Aspiradores robóticos
- Cortadores de grama
- Limpadores de piscina
Esses dispositivos operavam de forma relativamente autônoma, mas sem integração profunda com o ecossistema da casa inteligente.
A nova geração: robôs como agentes inteligentes
A CES 2026 evidenciou uma mudança clara: robôs domésticos começam a ser projetados como agentes multifuncionais, dotados de:
- Visão computacional avançada
- IA generativa embarcada ou híbrida (local + nuvem)
- Capacidade de interação física com o ambiente
- Integração com sistemas de automação residencial
Esses robôs não apenas executam tarefas, mas tomam decisões baseadas em contexto.
Robótica integrada à automação
Quando conectados ao sistema de automação residencial, robôs deixam de ser “aparelhos” e passam a fazer parte da lógica da casa:
- Atuam apenas quando não há presença humana em determinados ambientes
- Recebem informações de sensores, fechaduras, climatização e energia
- Executam tarefas coordenadas com outros subsistemas
Exemplo prático:
Ao detectar que a residência está vazia, o sistema aciona o robô de limpeza, ajusta o modo econômico de climatização e programa o robô para interromper atividades automaticamente caso a presença seja detectada.
IA avançada: aprendizado e adaptação
O diferencial dessa nova robótica não está apenas no hardware, mas na capacidade de:
- Aprender rotinas do usuário
- Ajustar comportamentos com base em feedback implícito
- Priorizar tarefas conforme contexto e urgência
- Operar com maior segurança em ambientes compartilhados com pessoas
Isso representa uma transição do conceito de “automação programada” para automação adaptativa.
O que isso muda para integradores, projetistas e gestores
A convergência entre presença inteligente, automação contextual e robótica com IA redefine o papel do profissional de automação:
- O foco deixa de ser apenas dispositivos e passa a ser arquitetura de experiências
- Projetos exigem maior atenção à integração de dados e interoperabilidade
- Protocolos como Matter, Thread e APIs abertas tornam-se estratégicos
- A automação passa a ser percebida como infraestrutura de valor agregado, não como acessório
Conclusão
A automação residencial está deixando de ser um conjunto de respostas automáticas para se tornar um sistema cognitivo distribuído, capaz de perceber, interpretar e agir de forma coordenada.
A automação contextual baseada em presença inteligente elimina fricções e aproxima a tecnologia do comportamento humano. A robótica doméstica com IA avançada, por sua vez, amplia o alcance da automação para o mundo físico, executando tarefas e interagindo com o ambiente de forma cada vez mais autônoma.
Juntas, essas duas frentes apontam para um futuro em que a casa não apenas responde — ela compreende, aprende e colabora com seus moradores.




