Uma recente reportagem publicada pelo Correio Braziliense colocou a casa conectada entre os oito setores considerados promissores do varejo brasileiro para 2026. Segundo a publicação, a popularização de assistentes de voz, dispositivos conectados e soluções de automação residencial vem impulsionando um nicho de maior valor agregado, que inclui iluminação, fechaduras, câmeras, eletrodomésticos e outros equipamentos inteligentes.
A informação é relevante não apenas para fabricantes e varejistas. Ela sinaliza uma transformação mais ampla: a tecnologia está entrando definitivamente no ambiente residencial e criando novas oportunidades para empresas e profissionais especializados.
De produtos inteligentes para sistemas integrados
Durante muitos anos, falar em automação residencial significava apresentar soluções sofisticadas para um público relativamente restrito. Hoje, o cenário é diferente.
Fechaduras digitais, câmeras conectadas, iluminação inteligente, sensores, dispositivos de controle de energia, eletrodomésticos conectados, assistentes de voz e sistemas de entretenimento já fazem parte do repertório de consumo de uma parcela crescente da população.
Um levantamento divulgado pela CNN Brasil em 2026 apontou crescimento de 22% nas buscas relacionadas a casas inteligentes no Brasil, considerando termos como “casa inteligente” e “smart home”. O levantamento também identificou interesse por categorias como câmeras, fechaduras digitais e eletrodomésticos inteligentes.
Mais recentemente, dados divulgados pela Infracommerce indicaram que as vendas de produtos relacionados à automação doméstica cresceram 37% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Segundo a empresa, produtos com recursos de automação, programação ou conectividade apresentaram tíquete médio até 15% superior aos modelos convencionais e já representavam 22% da receita da categoria analisada.
Esses números ajudam a mostrar uma mudança importante no comportamento do consumidor.
A questão já não é somente “qual equipamento inteligente comprar?”
Começa a ser:
“Como fazer todos esses equipamentos funcionarem juntos?”
É justamente aí que surge uma nova oportunidade.
O verdadeiro valor está na integração
Comprar um dispositivo conectado é relativamente simples. Transformar dezenas de dispositivos e sistemas diferentes em uma solução coerente exige conhecimento.
Uma residência inteligente pode envolver, por exemplo:
- iluminação;
- persianas e cortinas motorizadas;
- climatização;
- áudio e vídeo;
- segurança eletrônica;
- controle de acesso;
- redes Wi-Fi e infraestrutura de conectividade;
- sensores;
- gerenciamento de energia;
- monitoramento;
- assistentes de voz;
- IoT;
- plataformas em nuvem;
- integração entre diferentes fabricantes;
- e, cada vez mais, recursos baseados em inteligência artificial.
O profissional de automação residencial precisa, portanto, compreender muito mais do que um catálogo de produtos.
Ele precisa entender arquitetura de sistemas, redes, protocolos de comunicação, integração, programação, experiência do usuário, segurança, infraestrutura elétrica e de dados e, principalmente, projeto.
Essa mudança representa uma evolução importante do próprio mercado.
Um mercado que precisa de capacitação
As perspectivas internacionais também ajudam a dimensionar essa transformação.
Segundo levantamento da Grand ViewResearch, o mercado brasileiro de smart home deverá apresentar crescimento expressivo nos próximos anos, com estimativa de US$ 12,8 bilhões em receitas em 2030 e crescimento anual composto projetado de 27,6% entre 2025 e 2030. O estudo aponta ainda que a área de Home Healthcare está entre os segmentos de crescimento mais rápido.)
Independentemente das diferenças metodológicas entre os diversos estudos de mercado, existe uma convergência clara: conectividade, automação e inteligência aplicada à residência estão ampliando seu espaço.
E existe uma consequência direta desse crescimento: quanto maior o mercado, maior a necessidade de profissionais preparados para atender essa demanda.
O próprio mercado de Casa & Construção vem sendo impactado por essa transformação. O Sebrae destaca, entre as tendências para 2025–2027, projetos mais inteligentes, eficientes e personalizados, com presença crescente da automação residencial, sustentabilidade e design funcional)
Não basta conhecer tecnologia
Um dos riscos de um mercado em expansão é confundir venda de equipamentos com solução de automação.
A instalação de um dispositivo inteligente pode ser realizada por diferentes profissionais. Já o desenvolvimento de uma solução integrada exige outra camada de conhecimento.
É preciso saber:
Especificar.
Entender as necessidades do cliente e selecionar tecnologias adequadas.
Projetar.
Definir arquitetura, infraestrutura, equipamentos, interfaces e lógica de funcionamento.
Integrar.
Fazer diferentes sistemas e fabricantes trabalharem de maneira coordenada.
Programar.
Transformar equipamentos e sensores em comportamentos e rotinas realmente úteis.
Comissionar.
Testar, validar e documentar o funcionamento do sistema.
Manter.
Garantir que a solução continue funcionando à medida que a residência, os equipamentos e as necessidades do usuário evoluem.
Essa profissionalização é fundamental para que o crescimento do mercado seja acompanhado por uma evolução equivalente na qualidade das instalações.
Uma oportunidade também para quem está entrando no setor
O cenário abre espaço para diferentes perfis profissionais.
Eletricistas, técnicos em eletrônica, profissionais de TI e redes, instaladores de segurança eletrônica, integradores de áudio e vídeo, arquitetos, designers, engenheiros e profissionais que já atuam no setor de construção podem encontrar na automação residencial uma possibilidade de especialização.
Mas a entrada nesse mercado exige atualização constante.
Protocolos como KNX, Matter, Zigbee, Wi-Fi, Bluetooth, MQTT, plataformas em nuvem, APIs, inteligência artificial e novas arquiteturas de IoT estão modificando rapidamente a maneira como os sistemas são desenvolvidos.
A capacitação deixou de ser um diferencial e passa a ser parte da própria atividade profissional.
A próxima fronteira: automação + IA
Outro elemento que começa a mudar profundamente esse cenário é a inteligência artificial.
A próxima geração de casas inteligentes não deverá apenas executar comandos previamente programados.
Ela poderá interpretar padrões de utilização, identificar situações anormais, otimizar consumo de energia, adaptar ambientes aos hábitos dos moradores e ampliar recursos relacionados à segurança, conforto, acessibilidade e longevidade.
Isso significa que o profissional do futuro precisará compreender não apenas automação, mas também dados, conectividade e inteligência aplicada aos ambientes.
A casa conectada tende a deixar de ser um conjunto de dispositivos para se transformar em um ecossistema tecnológico integrado.
A oportunidade está além do varejo
É justamente por isso que a notícia do Correio Braziliense merece ser observada com atenção.
Quando a casa conectada aparece entre os setores promissores do varejo, estamos olhando apenas para uma parte da cadeia.
Por trás da venda de cada dispositivo existe uma cadeia de oportunidades envolvendo:
fabricantes → distribuidores → projetistas → integradores → instaladores → programadores → profissionais de suporte → manutenção e atualização.
E existe ainda um mercado B2B cada vez mais relevante: incorporadoras, construtoras, arquitetos, hotéis, condomínios e empreendimentos imobiliários estão incorporando conectividade, automação, segurança e eficiência aos seus projetos.
Ou seja, a oportunidade não está apenas em vender tecnologia para uma residência.
Está em aprender a projetar e entregar soluções tecnológicas para os novos ambientes construídos.
Preparar-se agora
O crescimento de um mercado não significa automaticamente que todos os participantes terão sucesso. Significa, porém, que existe uma oportunidade para quem estiver preparado para atender uma demanda que tende a se tornar mais sofisticada.
A pergunta, portanto, talvez não seja apenas:
“A automação residencial vai crescer?”
Os indicadores disponíveis apontam para uma expansão do mercado e do interesse dos consumidores.
A pergunta mais interessante para profissionais e empresas pode ser:
“Estou preparado para participar desse crescimento?”
Conhecer produtos é importante.
Conhecer tecnologia é fundamental.
Mas saber projetar, integrar e entregar uma solução completa será cada vez mais determinante.
O mercado de casas conectadas está crescendo. E, junto com ele, cresce também a necessidade de conhecimento, capacitação e profissionalização.
Para quem pretende entrar ou se desenvolver nesse segmento, este pode ser um bom momento para começar a estudar, buscar certificações, acompanhar novas tecnologias e construir uma visão mais ampla sobre o ecossistema da automação residencial.
Porque a casa inteligente do futuro não será definida apenas pelos equipamentos que possui, mas pela qualidade da integração entre eles — e pelas pessoas capazes de transformar tecnologia em uma experiência realmente útil para seus usuários.




