Um hotel eficiente não depende apenas de equipamentos modernos, mas de como sua infraestrutura é integrada
Um sistema mal configurado, uma programação inadequada ou a ausência de monitoramento podem comprometer parte dos benefícios previstos

Um hotel eficiente não depende apenas de equipamentos modernos, mas de como sua infraestrutura é integrada

A modernização tecnológica da hotelaria costuma ser associada à instalação de equipamentos mais eficientes, à adoção de sistemas digitais ou à incorporação de novas ferramentas de inteligência artificial. Embora importantes, essas iniciativas representam apenas parte do potencial de transformação dos empreendimentos hoteleiros.

Uma questão fundamental é compreender como os diferentes recursos tecnológicos podem trabalhar de maneira integrada, produzindo informações úteis para a gestão e permitindo que a operação seja continuamente aperfeiçoada.

Essa perspectiva encontra respaldo em uma pesquisa publicada em fevereiro de 2026 no International Journal of Hospitality Management, periódico científico internacional dedicado à gestão hoteleira. O estudo, intitulado Integrated sustainable building features and smart hotel management: Evidence from seven years of hotel operational data, investiga os resultados da integração entre características sustentáveis do edifício e sistemas inteligentes de gestão.

Sete anos de dados operacionais: o que revela a pesquisa

O trabalho, de autoria de Rosana W. M. Wong e Becky Pui Ying Loo, analisou dados mensais de um hotel de 36 andares e 274 apartamentos em Hong Kong, abrangendo o período de 2013 a 2020.

A pesquisa considerou 19 recursos integrados de infraestrutura sustentável e seis componentes de gestão hoteleira inteligente, relacionando essas tecnologias a dez indicadores operacionais. Os pesquisadores utilizaram análises de séries temporais e modelagem estatística para investigar as relações entre integração tecnológica e sustentabilidade.

Os resultados relatados são expressivos. Ao longo do período analisado, o empreendimento registrou uma redução de 55,5% no consumo de energia. O consumo médio de água por hóspede ficou aproximadamente 69,4% abaixo da referência setorial utilizada pelo estudo. O hotel também apresentou ocupação de 91%, retorno sobre o investimento de 25% e prazo de retorno de aproximadamente quatro anos.

Os autores identificaram relações estatisticamente significativas entre o nível de integração dos recursos sustentáveis e o desempenho ambiental e econômico.

É importante observar que esses números correspondem a um estudo de caso específico. Os leitores não devem interpretar esses resultados como automaticamente reproduzíveis em qualquer hotel, nem como prova de que a tecnologia, isoladamente, explica todos os indicadores apresentados. Ainda assim, a pesquisa oferece evidências relevantes sobre o potencial de uma abordagem integrada e acompanhada ao longo do tempo.

Equipamentos eficientes são importantes e sistemas integrados são decisivos

Um hotel pode instalar iluminação eficiente, equipamentos modernos de climatização, sensores de presença e dispositivos de monitoramento de consumo sem necessariamente alcançar todo o potencial dessas soluções.

Isso acontece quando os sistemas operam de maneira independente, sem compartilhar informações ou considerar as condições reais de utilização do edifício.

A eficiência depende não apenas das características dos equipamentos, mas também de como são comandados, monitorados e ajustados ao longo do tempo.

Considere, por exemplo, um sistema de climatização. Seu desempenho não depende somente da eficiência dos chillers ou de outros equipamentos. Também é influenciado pela ocupação, pelas condições climáticas externas, pelos horários de funcionamento e pela coordenação entre os componentes da instalação.

A pesquisa destaca justamente a importância de combinar infraestrutura física, automação e inteligência de gestão. No caso estudado, a implantação, em 2018, de um sistema de otimização com inteligência artificial voltado à central de água gelada foi uma das intervenções relevantes. Essa central representava aproximadamente 40% do consumo energético do hotel.

O exemplo ilustra uma mudança importante: em vez de apenas substituir equipamentos, passa-se a utilizar dados operacionais para ajustar continuamente seu funcionamento.

Da automação à gestão inteligente do edifício

Essa abordagem amplia o papel tradicional da automação predial. O objetivo deixa de ser apenas executar comandos programados e passa a incluir o acompanhamento sistemático do desempenho, a identificação de desvios e a melhoria contínua da operação.

Diversas tecnologias podem contribuir para esse processo:

  • Automação predial e BMS: integração e supervisão de sistemas de climatização, iluminação, bombas e outros equipamentos.
  • Medição e análise de consumo: monitoramento setorizado de energia e água para identificar desperdícios, anomalias e oportunidades de melhoria.
  • Sensores e Internet das Coisas (IoT): coleta de informações sobre ocupação, temperatura, condições ambientais e funcionamento dos equipamentos.
  • Inteligência artificial: análise de padrões e apoio à otimização operacional, à previsão de demanda e à manutenção preditiva, quando existem dados e modelos adequados.
  • Conectividade e integração: infraestrutura de comunicação que permite trocar informações entre sistemas, evitando a formação de ambientes tecnológicos isolados.
  • Monitoramento e manutenção: acompanhamento de condições operacionais para antecipar problemas, reduzir falhas e melhorar a disponibilidade dos equipamentos.

O valor dessas tecnologias aumenta quando elas fazem parte de uma arquitetura coerente, com objetivos definidos, indicadores de desempenho e responsabilidades claras pela gestão das informações.

Sustentabilidade precisa ser medida na operação

Outro aspecto relevante é a diferença entre projetar um edifício com características sustentáveis e assegurar que ele opere de maneira eficiente durante toda a sua vida útil.

Certificações e critérios de sustentabilidade são instrumentos importantes, mas o desempenho cotidiano também depende da operação. Um sistema mal configurado, uma programação inadequada ou a ausência de monitoramento podem comprometer parte dos benefícios previstos.

A gestão inteligente permite acompanhar indicadores, comparar períodos, identificar desvios e verificar se as medidas adotadas estão produzindo os resultados esperados.

Para os hotéis, isso significa transformar objetivos ambientais em parâmetros operacionais concretos: consumo de energia por apartamento ocupado, consumo de água por hóspede, disponibilidade de equipamentos, frequência de falhas e custos de manutenção, entre outros.

Esses indicadores também ajudam a fundamentar decisões de investimento, priorizando intervenções com maior potencial de retorno e compatíveis com as características de cada empreendimento.

Retrofit tecnológico: uma estratégia para hotéis existentes

Grande parte dos hotéis em operação reúne equipamentos instalados em diferentes épocas e sistemas que os fabricantes não projetaram originalmente para funcionar de forma integrada. Isso não significa que seja necessário substituir toda a infraestrutura para avançar na modernização.

O retrofit tecnológico permite identificar oportunidades e estruturar intervenções progressivas, desde a instalação de medidores e sensores até a integração de sistemas prediais e a implantação de plataformas de supervisão.

O ponto de partida deve ser um diagnóstico técnico e operacional: compreender os principais centros de consumo, identificar falhas recorrentes, avaliar a infraestrutura existente e estabelecer prioridades.

A partir daí, é possível definir etapas de implantação, investimentos, indicadores e procedimentos para avaliar os resultados. Em um hotel em funcionamento, o planejamento também precisa considerar a ocupação, as rotinas das equipes e a necessidade de evitar interferências na experiência dos hóspedes.

Essa abordagem reduz o risco de investir em soluções isoladas e ajuda a direcionar os recursos para problemas efetivamente relevantes.

O futuro da eficiência hoteleira é integrado

A pesquisa publicada no International Journal of Hospitality Management propõe uma reflexão importante: os empreendimentos não devem avaliar a modernização tecnológica apenas pela quantidade ou sofisticação dos equipamentos instalados, mas também pela capacidade dessas soluções de melhorar seu desempenho ao longo do tempo.

Para isso, os gestores precisam integrar infraestrutura, automação, conectividade, dados e gestão em uma única estratégia.

É essa visão que orienta o Programa de Retrofit Tecnológico de Hotéis, iniciativa desenvolvida com o apoio da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). Ela busca aproximar os empreendimentos hoteleiros de fornecedores e integradores especializados em automação, conectividade, segurança eletrônica, gestão predial e monitoramento.

Além de introduzir novas tecnologias, o desafio é identificar onde elas podem gerar benefícios concretos, estabelecer prioridades e construir projetos tecnicamente consistentes e economicamente justificáveis.

Em um mercado no qual eficiência operacional, sustentabilidade e competitividade ganham importância crescente, integrar tecnologia à gestão do edifício deixa de ser apenas uma modernização de infraestrutura. Passa a ser uma decisão estratégica para a longevidade e o desempenho do negócio hoteleiro.

Leia também Projeto premiado no KNX Awards 2026 mostra como a automação integrada pode transformar a gestão hoteleira
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