Hotelaria no Brasil terá 26 mil novos quartos até 2030 como tecnologia e construção modular podem transformar este cenário
A 20ª edição do Panorama da Hotelaria Brasileira 2026 aponta 178 hotéis em desenvolvimento no país

Hotelaria no Brasil terá 26 mil novos quartos até 2030: como tecnologia e construção modular podem transformar este cenário

A hotelaria no Brasil está diante de um novo ciclo de investimentos. Mas, além de perguntar quantos hotéis serão construídos nos próximos anos, talvez seja ainda mais importante perguntar: como eles serão construídos, equipados e preparados para operar?

A 20ª edição do Panorama da Hotelaria Brasileira 2026, elaborado pela HotelInvest com apoio institucional do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (FOHB), aponta 178 hotéis em desenvolvimento no país, representando aproximadamente 26,3 mil novas unidades habitacionais e mais de R$ 13,6 bilhões em investimentos previstos até 2030.

Outro dado é particularmente significativo: 66% da nova oferta está concentrada em cidades do interior.

Os números mostram não apenas a expansão da hotelaria, mas também uma oportunidade para rever os próprios modelos utilizados para desenvolver novos empreendimentos.

Construção modular entra na agenda da hotelaria

A análise dos dados do Panorama da Hotelaria Brasileira 2026, chama atenção justamente para essa questão: diante de milhares de novos quartos previstos, precisamos discutir como produzir essa nova capacidade hoteleira.

É nesse contexto que a construção modular e outros processos de industrialização da construção ganham relevância.

Hotéis apresentam características particularmente interessantes para sistemas industrializados: elevada repetição de ambientes, padronização de unidades habitacionais, concentração de instalações técnicas e possibilidade de fabricação de determinados componentes ou módulos fora do canteiro.

A questão, portanto, vai além da simples redução do prazo da obra.

A construção modular pode permitir uma nova lógica de implantação, baseada em padronização, repetibilidade, fabricação off-site, maior controle de qualidade e, em determinados empreendimentos, expansão planejada por etapas.

Para investidores e desenvolvedores, surge inclusive a possibilidade de pensar o empreendimento de maneira diferente: implantar inicialmente uma capacidade compatível com a demanda existente e preparar sua infraestrutura para futuras ampliações.

Modular não significa simplesmente construir mais rápido

Existe, entretanto, um ponto fundamental.

A industrialização de componentes não garante, isoladamente, que o empreendimento seja entregue mais rapidamente.

Projeto, engenharia, fornecedores, produção, logística, instalações e montagem precisam funcionar de maneira coordenada. Caso contrário, simplesmente transferimos gargalos do canteiro de obras para outras etapas da cadeia.

É justamente nesse ponto que conceitos de Lean Construction podem se tornar complementares à construção modular.

Enquanto o processo modular cria novas possibilidades de produção, os princípios Lean ajudam a organizar o processo como um sistema integrado: capacidade alinhada à demanda, continuidade dos fluxos, redução de esperas e estoques, eliminação de desperdícios e maior previsibilidade.

E existe uma terceira camada: a tecnologia

Se estamos repensando a maneira de construir hotéis, existe outra questão que merece entrar nessa discussão desde o início: como incorporar automação, conectividade e infraestrutura digital nesse novo modelo construtivo?

Grande parte dos sistemas tecnológicos de um hotel ainda é definida em etapas relativamente avançadas dos projetos. Automação de quartos, controle de acesso, redes, Wi-Fi, climatização, iluminação, gestão de energia, monitoramento de água, segurança e sistemas de gestão acabam sendo tratados como disciplinas independentes.

Em um processo industrializado, essa lógica precisa mudar.

A tecnologia pode ser incorporada ao próprio processo de fabricação.

Um módulo de apartamento, por exemplo, pode sair da fábrica com parte significativa de sua infraestrutura elétrica, sensores, dispositivos de automação, cabeamento, interfaces de climatização e conectividade já instalada, configurada e eventualmente testada.

Passamos então de uma lógica de instalar tecnologia na obra para outra muito mais interessante: produzir unidades tecnologicamente preparadas.

Do quarto modular ao “quarto inteligente modular”

Esse conceito pode abrir uma frente especialmente interessante para a hotelaria.

Imagine unidades habitacionais produzidas a partir de uma arquitetura tecnológica padronizada, porém configurável conforme a categoria e as necessidades do empreendimento.

Essa arquitetura poderia prever, desde sua concepção:

  • automação e gerenciamento de energia do apartamento;
  • integração da climatização com ocupação;
  • controle inteligente de iluminação;
  • sensores de presença e abertura;
  • fechaduras e controle de acesso;
  • infraestrutura de Wi-Fi e conectividade;
  • monitoramento de consumo;
  • detecção de vazamentos;
  • integração com sistemas de gestão hoteleira;
  • preparação para manutenção preditiva e análise de dados.

A padronização não significa limitar a personalização do hotel. Significa criar uma base tecnológica replicável, capaz de reduzir improvisações em campo, acelerar comissionamento e facilitar manutenção e futuras atualizações.

Uma oportunidade também para o retrofit tecnológico

Essa discussão não interessa apenas aos hotéis que serão construídos.

Os mesmos princípios de padronização, interoperabilidade, eficiência energética e infraestrutura preparada para evolução tecnológica podem ser aplicados aos milhares de hotéis existentes no Brasil.

Enquanto os novos empreendimentos podem nascer preparados para uma operação digital, hotéis existentes precisarão progressivamente modernizar seus sistemas para permanecer competitivos.

É justamente um dos conceitos defendidos pelo Programa de Retrofit Tecnológico de Hotéis: modernização não deve significar simplesmente substituir equipamentos antigos por novos. O objetivo deve ser criar uma infraestrutura integrada que permita reduzir custos operacionais, melhorar a experiência do hóspede, aumentar a eficiência energética e preparar o empreendimento para futuras tecnologias.

Assim, nova construção e retrofit começam a convergir para uma mesma direção: hotéis mais conectados, mensuráveis, eficientes e adaptáveis.

Industrialização também pode favorecer a modernização

Existe ainda uma possibilidade pouco explorada: utilizar conceitos da construção industrializada também nos processos de retrofit.

Soluções pré-configuradas, painéis técnicos padronizados, kits de automação, gateways, sensores sem fio e conjuntos previamente testados podem reduzir significativamente o tempo de intervenção dentro de hotéis em operação.

Para a hotelaria, esse aspecto é especialmente relevante. Cada apartamento indisponível durante uma reforma representa potencial perda de receita.

Quanto maior for o trabalho realizado previamente fora do empreendimento e menor o tempo necessário para instalação e comissionamento em campo, menor tende a ser o impacto da modernização sobre a operação.

Uma nova cadeia de oportunidades

Os 26,3 mil novos quartos previstos até 2030 representam, portanto, muito mais do que uma oportunidade para construtoras e operadores hoteleiros.

Existe uma cadeia inteira que pode participar desse movimento: empresas de construção modular, projetistas, integradores de tecnologia, fabricantes de equipamentos, desenvolvedores de software, empresas de conectividade, automação, climatização, eficiência energética e gestão predial.

A interiorização dos investimentos reforça ainda mais essa necessidade. Com grande parcela dos novos empreendimentos fora das capitais, soluções padronizadas, replicáveis, de fácil implantação e com suporte remoto tendem a ganhar importância.

Talvez a questão central, portanto, não seja apenas como construir 26 mil novos quartos.

A oportunidade é pensar como construir uma nova geração de hotéis, combinando industrialização, Lean Construction, automação, conectividade, eficiência energética e gestão baseada em dados.

Se uma parcela relevante da hotelaria brasileira será construída nos próximos anos, este é o momento de definir não apenas a aparência desses novos empreendimentos, mas também a infraestrutura tecnológica e operacional que eles deverão carregar durante todo o seu ciclo de vida.

Fontes e referências: Panorama da Hotelaria Brasileira 2026 – HotelInvest, com apoio institucional do FOHB.

Leia também Tecnologia na hotelaria: por que integrar sistemas tornou-se prioridade para os hotéis?
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