Short stays em edifícios multiuso: um novo mercado que exige soluções integradas

Short stays em edifícios multiuso: um novo mercado que exige soluções integradas

O mercado brasileiro de hospedagem temporária vem ganhando espaço rapidamente. Impulsionado pelas plataformas digitais, pelo trabalho remoto, pelas viagens profissionais e pela busca por maior flexibilidade, o modelo conhecido como short stay passou a ocupar uma posição intermediária entre a locação residencial convencional e a hotelaria.

Short stays em edifícios multiuso: um novo mercado que exige soluções integradas
O modelo atende às necessidades da vida moderna

Esse movimento também está influenciando o mercado imobiliário. Studios e apartamentos compactos, especialmente em regiões centrais e próximas a polos empresariais, turísticos, universitários e hospitalares, são cada vez mais adquiridos por investidores interessados em operações de curta permanência.

Entretanto, o crescimento desse mercado trouxe um desafio ainda pouco equacionado: muitos desses apartamentos estão localizados em edifícios concebidos para uso residencial tradicional ou em empreendimentos multiuso, nos quais convivem moradores permanentes, hóspedes temporários, investidores, operadores de locação, prestadores de serviços e estabelecimentos comerciais.

Essa diversidade de usuários cria uma dinâmica operacional muito mais complexa do que aquela encontrada em um condomínio residencial convencional.

Um edifício, diferentes formas de ocupação

O morador permanente conhece as regras do condomínio, utiliza regularmente seus acessos e desenvolve uma relação contínua com funcionários, vizinhos e áreas comuns. O hóspede temporário, por outro lado, precisa receber rapidamente credenciais de acesso, orientações de uso, informações sobre serviços e suporte durante uma permanência que pode durar poucos dias.

Ao mesmo tempo, equipes de limpeza, manutenção, lavanderia, entrega e abastecimento precisam circular pelo empreendimento em horários determinados e com permissões específicas.

Quando esses fluxos não são planejados, surgem problemas recorrentes:

  • dificuldade para identificar hóspedes e visitantes;
  • sobrecarga da portaria;
  • compartilhamento inadequado de senhas, controles e chaves;
  • circulação indevida em áreas restritas;
  • conflitos entre moradores permanentes e usuários temporários;
  • uso desordenado de elevadores e áreas comuns;
  • dificuldade para coordenar limpeza e manutenção;
  • ausência de registros confiáveis sobre acessos e ocorrências;
  • aumento dos custos operacionais;
  • dúvidas sobre a responsabilidade de proprietários, operadores e condomínio.
  • Portanto, o desafio não está apenas dentro do apartamento. Ele envolve toda a infraestrutura física, digital e operacional do empreendimento.

A questão também é jurídica e condominial

A própria classificação dessa modalidade ainda passa por definições importantes. Em maio de 2026, o Superior Tribunal de Justiça estabeleceu que contratos de curta estadia intermediados por plataformas não se enquadram propriamente como locação residencial nem como hospedagem hoteleira, sendo considerados contratos atípicos. O tribunal também decidiu que sua utilização em condomínios de destinação residencial depende de aprovação de pelo menos dois terços dos condôminos.

A decisão reforça um ponto essencial: tecnologia, governança, convenção condominial e modelo operacional precisam ser tratados de maneira integrada. Não basta instalar uma fechadura eletrônica ou contratar um aplicativo de reservas. É necessário definir previamente como o empreendimento pretende administrar a coexistência entre diferentes formas de ocupação.

A tecnologia como infraestrutura de gestão

Automação e conectividade podem resolver uma parcela significativa desses problemas, desde que os produtos e softwares adotados consigam compartilhar dados e operar de forma coordenada.

Uma arquitetura tecnológica voltada ao short stay pode reunir:

  • controle de acesso com credenciais temporárias;
  • fechaduras eletrônicas integradas às reservas;
  • liberação remota de hóspedes e prestadores;
  • gestão diferenciada de elevadores e áreas comuns;
  • cadastro digital e validação de identidade;
  • integração entre reserva, check-in e check-out;
  • interfonia IP e atendimento remoto;
  • monitoramento de ocupação, respeitando a privacidade;
  • automação de iluminação e climatização;
  • desligamento de cargas após o check-out;
  • detecção de vazamentos, fumaça e outras situações de risco;
  • medição individualizada de água e energia;
  • gestão das equipes de limpeza e manutenção;
  • registro de eventos para auditoria e resolução de ocorrências;
  • comunicação digital com hóspedes e moradores;
  • integração com sistemas condominiais e plataformas de gestão.

Esses recursos podem proporcionar mais segurança e conveniência, reduzir tarefas manuais, evitar desperdícios e melhorar a experiência de todos os envolvidos.

O principal desafio, entretanto, é impedir que o edifício se transforme em um conjunto de sistemas isolados. A solução precisa conectar a unidade privativa, as áreas comuns e a operação do empreendimento, mantendo critérios claros de segurança cibernética, proteção de dados, disponibilidade e responsabilidade pelas informações.

É preciso projetar o modelo — e não somente comprar equipamentos

Empreendimentos preparados desde a concepção possuem melhores condições para organizar acessos, redes, infraestrutura, circulação de prestadores, áreas de apoio e sistemas de gestão. Nos edifícios existentes, por sua vez, será necessário desenvolver estratégias de retrofit capazes de incorporar essas funcionalidades com o mínimo de interferência física e operacional.

Em ambos os casos, algumas questões precisam ser respondidas:

  • Quem cadastra e valida o hóspede?
  • Como são criadas e canceladas as credenciais?
  • Quais ambientes podem ser acessados por cada perfil de usuário?
  • Como separar os fluxos de moradores, hóspedes e prestadores?
  • Quem responde pelo suporte fora do horário comercial?
  • Como os sistemas das unidades se comunicam com a gestão do edifício?
  • Quais dados devem ser armazenados e por quanto tempo?
  • Como preservar a privacidade e atender à LGPD?
  • Quem arca com os custos adicionais gerados pela operação?
  • Quais indicadores demonstram segurança, eficiência e qualidade dos serviços?

Sem essas definições, a tecnologia pode apenas digitalizar processos já desorganizados. Com um modelo bem estruturado, ela se transforma em uma verdadeira plataforma de gestão.

Uma oportunidade para desenvolver soluções brasileiras

O crescimento dos shortstays abre espaço para uma nova cadeia de produtos e serviços. Incorporadoras, administradoras condominiais, operadores de hospedagem, integradores de automação, empresas de controle de acesso, desenvolvedores de software, fabricantes, escritórios de arquitetura, consultores jurídicos e especialistas em segurança precisam trabalhar de forma conjunta.

Há oportunidade para criar:

  • referências de infraestrutura para novos empreendimentos;
  • modelos de retrofit para edifícios existentes;
  • protocolos de integração entre equipamentos e plataformas;
  • indicadores de desempenho operacional;
  • boas práticas de segurança e privacidade;
  • modelos de governança condominial;
  • procedimentos para hóspedes e prestadores;
  • laboratórios e projetos-piloto;
  • empreendimentos demonstrativos;
  • soluções escaláveis para diferentes perfis de edifícios.

Investidores e proprietários também se beneficiam dessa estruturação. Imóveis inseridos em edifícios preparados para a operação tendem a apresentar maior previsibilidade de custos, melhor experiência para o usuário e menor exposição a conflitos que podem comprometer a continuidade ou a rentabilidade da atividade.

Um convite à colaboração

Estamos diante de um mercado promissor, mas que ainda precisa construir suas próprias referências. O momento é particularmente favorável para reunir empresas de tecnologia, desenvolvedores, incorporadores, operadores, administradores, investidores, integradores e especialistas interessados em formular soluções integradas para essa nova realidade imobiliária.

O InovaNEX Hub pretende estimular essa aproximação, promovendo a troca de conhecimento, o mapeamento das principais dificuldades operacionais e a criação de projetos-piloto que permitam testar tecnologias, processos e modelos de gestão.

Pretendemos colaborar na construção de uma visão sistêmica: edifícios capazes de reconhecer diferentes perfis de ocupação, administrar seus fluxos com segurança e oferecer serviços adequados a moradores, hóspedes, operadores e proprietários.

Profissionais e empresas que já desenvolvem soluções para controle de acesso, automação, conectividade, gestão condominial, hospitalidade, eficiência energética, segurança ou operação de imóveis estão convidados a participar dessa construção.

O short stay não deveria ser tratado apenas como uma nova modalidade de locação. Ele representa uma transformação na forma de projetar, operar e utilizar os edifícios. E essa transformação exige colaboração, integração tecnológica e novos padrões de gestão.

Este artigo contou com a colaboração do InovaNEX Hub, ecossistema de geração de negócios no mercado de automação e conectividade.

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