Tecnologia na hotelaria por que integrar sistemas tornou-se prioridade para os hotéis
Um dos dados mais significativos apresentados pelo estudo é que apenas 54% dos hoteleiros afirmam utilizar ferramentas predominantemente integradas

Tecnologia na hotelaria: por que integrar sistemas tornou-se prioridade para os hotéis

A transformação digital da hotelaria está entrando em uma nova etapa. Depois de anos marcados pela adoção de diferentes plataformas, aplicativos, sistemas de gestão e dispositivos conectados, o desafio dos hotéis passa a ser menos adquirir tecnologia e mais fazer com que essas tecnologias trabalhem de maneira integrada.

Essa é uma das principais conclusões do estudo Future Forecast: Hospitality Tech Predictions for 2026, divulgado pela IDeaS a partir de informações obtidas junto a profissionais da hotelaria e empresas de tecnologia.

O levantamento aponta cinco movimentos particularmente relevantes: simplificação tecnológica, avanço da inteligência artificial, integração das estratégias comerciais, sustentabilidade associada à eficiência operacional e automação como apoio às equipes dos hotéis.

O problema da fragmentação tecnológica

Um dos dados mais significativos apresentados pelo estudo é que apenas 54% dos hoteleiros afirmam utilizar ferramentas predominantemente integradas.

Esse número revela um problema bastante conhecido pelo setor.

Ao longo dos anos, hotéis foram incorporando sistemas para diferentes necessidades: PMS, reservas, controle de acesso, climatização, iluminação, Wi-Fi, CFTV, gestão de energia, manutenção, relacionamento com hóspedes, revenue management e inúmeros outros recursos.

Individualmente, muitos desses sistemas funcionam adequadamente. O problema aparece quando cada solução opera como uma ilha.

O resultado pode ser uma infraestrutura tecnológica fragmentada, com informações dispersas, diferentes interfaces de operação e pouca capacidade de utilizar os dados produzidos pelos próprios sistemas.

Por isso, uma das principais tendências apontadas para 2026 é justamente a simplificação do ambiente tecnológico e a criação de estratégias mais integradas.

Do hotel automatizado para o hotel conectado

Essa mudança também altera a maneira como devemos compreender a automação hoteleira.

Automatizar um quarto, por exemplo, pode significar controlar iluminação, climatização, cortinas ou acesso. Mas um hotel realmente conectado pode ir além.

A informação de ocupação de uma unidade habitacional pode ser utilizada simultaneamente por diferentes sistemas.

Quando o hóspede deixa o apartamento, por exemplo, a climatização pode assumir automaticamente uma condição de economia, determinadas cargas podem ser desligadas e o sistema pode registrar informações relevantes para operação e manutenção.

Quando existe integração, portanto, um mesmo dado pode gerar diferentes ações.

É essa capacidade de comunicação entre sistemas que começa a diferenciar a simples automação da verdadeira inteligência operacional do edifício.

Inteligência artificial exige dados — e dados exigem integração

Outro indicador relevante do estudo é que 89% dos hoteleiros pesquisados planejam novas aplicações de inteligência artificial. Entre os exemplos aparecem chatbots, check-in móvel e assistentes inteligentes capazes de apoiar decisões operacionais.

Entretanto, existe uma questão anterior à própria IA.

Para produzir resultados relevantes, sistemas inteligentes precisam receber informações confiáveis e estruturadas.

Um hotel que possui dezenas de sistemas isolados pode gerar enorme quantidade de dados e, paradoxalmente, ter dificuldade para transformá-los em informação útil.

Por isso, a evolução tecnológica tende a seguir uma sequência: sensoriamento → conectividade → integração → dados → análise → automação → inteligência.

Essa lógica também ajuda a compreender por que infraestrutura de redes, interoperabilidade, APIs, gateways, protocolos abertos e plataformas de integração ganham importância crescente nos projetos hoteleiros.

A IA pode estar no topo dessa estrutura, mas depende de uma base tecnológica adequadamente construída.

Sustentabilidade precisa produzir resultado operacional

O estudo também identifica uma situação aparentemente contraditória: sustentabilidade continua sendo considerada importante pelo setor, mas frequentemente perde prioridade diante das necessidades operacionais e financeiras dos hotéis.

A solução tende a surgir quando sustentabilidade e rentabilidade deixam de ser tratadas como objetivos separados.

Tecnologias de automação e monitoramento permitem atuar justamente nessa convergência.

Entre as possibilidades estão:

  • controle de climatização baseado em ocupação;
  • desligamento automático de cargas;
  • automação e dimerização da iluminação;
  • monitoramento do consumo energético;
  • detecção de vazamentos;
  • controle e medição do consumo de água;
  • acompanhamento de temperatura e qualidade ambiental;
  • identificação de anomalias de funcionamento;
  • manutenção baseada em dados.

Nesse cenário, eficiência energética deixa de representar apenas uma iniciativa ambiental e passa a fazer parte da estratégia de redução de OPEX e melhoria da rentabilidade do empreendimento.

Automação também pode enfrentar a escassez de mão de obra

Outra tendência destacada para 2026 envolve a estabilidade das equipes. Automação, capacitação e treinamento multidisciplinar aparecem entre os investimentos considerados relevantes para aumentar a resiliência operacional.

Essa discussão é particularmente importante para a hotelaria.

Automação não precisa significar substituição de profissionais. Em muitas aplicações, seu principal benefício está na eliminação de tarefas repetitivas e na disponibilização de melhores informações para as equipes.

Alertas automáticos, dashboards operacionais, identificação antecipada de falhas, controle centralizado de equipamentos e geração automática de informações podem permitir que equipes menores administrem instalações cada vez mais complexas.

O profissional deixa de procurar o problema para passar a ser informado pelo sistema sobre onde intervir e, progressivamente, até sobre qual intervenção deve ser priorizada.

Retrofit tecnológico ganha importância

Grande parte dos hotéis brasileiros foi construída em uma época na qual conceitos como IoT, cloud computing, APIs, Inteligência Artificial, sensores sem fio e gestão baseada em dados sequer faziam parte das premissas dos projetos.

Isso não significa que esses empreendimentos estejam condenados à obsolescência.

Pelo contrário.

A evolução das tecnologias de comunicação, dos sensores, dos sistemas wireless e das plataformas de integração permite modernizar progressivamente edifícios existentes sem necessariamente substituir toda sua infraestrutura.

É justamente nesse contexto que o retrofit tecnológico ganha importância.

Diferentemente de uma reforma convencional, ele pode ser planejado como uma jornada de modernização.

O primeiro passo não precisa ser comprar equipamentos, mas realizar um diagnóstico tecnológico do empreendimento.

A partir dele podem ser identificadas prioridades relacionadas a conectividade, automação, eficiência energética, segurança, controle de acesso, gestão de água, climatização, infraestrutura digital e experiência do hóspede.

Modernização pode ser feita por etapas

Para muitos hotéis, especialmente empreendimentos independentes e de pequeno ou médio porte, substituir simultaneamente todos os sistemas seria economicamente inviável.

Uma estratégia de retrofit permite estabelecer etapas.

O hotel pode começar pelos investimentos de maior impacto ou retorno mais rápido — por exemplo, controle de climatização, gestão energética, fechaduras, conectividade ou automação dos apartamentos — e posteriormente avançar para integração, monitoramento centralizado e análise de dados.

Dessa maneira surge um verdadeiro roadmap tecnológico, no qual cada investimento realizado hoje contribui para a infraestrutura necessária às próximas etapas.

Essa abordagem reduz o risco de investimentos isolados e ajuda a evitar um dos problemas identificados pelo próprio estudo da IDeaS: a proliferação de tecnologias que funcionam individualmente, mas não formam um ecossistema integrado.

Uma oportunidade para a hotelaria brasileira

As tendências internacionais apontadas para 2026 reforçam uma conclusão importante para o mercado brasileiro:

o próximo ciclo de inovação da hotelaria não será determinado apenas pela quantidade de tecnologia instalada, mas pela capacidade de integrar tecnologia, operação e dados.

Isso significa que modernizar um hotel não é simplesmente instalar fechaduras digitais, sensores, novos sistemas de climatização ou dispositivos de automação.

O verdadeiro objetivo deve ser construir uma infraestrutura capaz de evoluir continuamente.

É dentro dessa visão que se insere o Programa de Retrofit Tecnológico de Hotéis, iniciativa desenvolvida para apoiar empreendimentos hoteleiros na identificação de oportunidades de modernização e na implementação progressiva de soluções relacionadas a automação, conectividade, segurança, eficiência energética e gestão operacional.

A proposta parte justamente de um princípio reforçado pelas tendências apontadas pela IDeaS: antes de escolher tecnologias, é preciso definir uma estratégia tecnológica para o hotel.

Em um setor no qual os edifícios possuem ciclos de vida de décadas enquanto as tecnologias evoluem em poucos anos, talvez essa seja uma das decisões mais importantes para preparar os empreendimentos para o futuro.

Fonte de referência: IDeaS – Future Forecast: Hospitality Tech Predictions for 2026.

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